O COMPADRE INVEJOSO
Era uma vez dois compadres: um era rico e morava num grande palácio, e o outro era pobre e morava por perto, numa choupana. O compadre rico era muito avarento e não ajudava nada ao compadre pobre, o qual, muitos vezes, não tinha nem o que comer.
Um dia o compadre pobre foi até o alto de um morro, onde havia um pé de coco; quando pelejava para derrubar um coco, este caiu e rolou morro abaixo, indo parar dentro da casa de um velhinho que morava por ali. O pobre homem desceu o morro e bateu à porta da casa pedindo licença ao velhinho para apanhar o coco e dizendo-lhe que era para alimentar seus filhos, que deixara chorando de fome.
O velhinho disse ao compadre pobre que podia pegar o coco, mas perguntou-lhe se não o queria trocar por três abóboras. O pobre aceitou a proposta e o velhinho então, disse-lhe que fosse à horta e apanhasse aquelas abóboras que lhe dissessem: "Me tira! Me tira!"
Assim fez o pobre homem, mas antes de ir embora foi agradecer ao velhinho, o qual falou: "Quando o senhor chegar com as abóboras no princípio do morro, jogue uma delas ao chão; quando chegar lá em cima, jogue outra; e quando chegar em casa, jogue a terceira que não se arrependerá."
Quando o compadre pobre ia começar a subir o morro jogou a primeira abóbora ao chão, como o velhinho lhe dissera. Apareceu então um belo cavalo, todo arreado, no qual ele montou e prosseguiu caminho. Ao chegar lá em cima do morro, jogou a segunda abóbora ao chão; apareceu-lhe uma vaca acompanhada de um bezerrinho, que ele tocou para casa. Ali chegando, jogou a última abóbora; apareceu-lhe um montão de dinheiro, tão grande que levou dias apanhando-o com a mulher e os filhos e levando-o para dentro de casa.
Com o dinheiro que ganhou, o homem mandou fazer uma bela casa e melhorou tanto sua pequena propriedade que ela parecia até um jardim. Daí por diante passou a viver como homem rico que era, e muito feliz com sua família.
Um dia o compadre rico passou por ali e viu aquilo tudo tão mudado, que se admirou, não resistindo a uma visita a seu compadre, ao qual perguntou como conseguira tal riqueza. O compadre que era pobre contou todo o caso para o outro, sem esconder nada. O rico foi embora, picado de tanta inveja e resolvido a ganhar também uma riqueza de maneira tão fácil.
Assim foi que se encaminhou para o mesmo coqueiro no alto do morro e deixou cair um coco, que rolou direito à casa do velhinho. O homem rico desceu o morro e foi ter com o velho, dizendo-lhe que era muito pobre e que aquele coco que ali caíra ia servir para alimentar os seus filhos. Como o velhinho sabia de tudo, disse ao homem invejoso que se ele quisesse trocaria o coco por três abóboras. Mais do que depressa o rico concordou. Então o velhinho explicou que fosse à horta e apanhasse as três abóboras que falassem: "Me tira! Me tira!"
O compadre rico apanhou as abóboras maiores que ele viu na horta e foi embora sem nem sequer agradecer ao velhinho. Quando começou a subir o morro jogou uma abóbora no chão. No mesmo instante, apareceu um bando de marimbondos que deu em cima dele, picando-o todinho. O homem subiu o morro correndo e lá em cima tratou de jogar outra abóbora fora; apareceu-lhe, então, uma bruta onça, a qual saiu correndo atrás do homem, quase o pegando.
Quando o compadre invejoso chegou à sua casa com a última abóbora em baixo do braço, fugindo da onça, abriu e fechou depressa a porta. Jogou a abóbora no chão, chamou a família toda e mandou que fechassem bem a casa. Assim fizeram. Foi aí que apareceram cobras por todos os lados, mordendo e matando todas as pessoas da casa. Quem mandou o homem ser tão invejoso?
(Teixeira, Fausto. Contos populares capixabas. Informante: Duziana Teresa Baiôco, 1959. Em Estórias e lendas de Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro, p. 238-239)
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Era num sábado. Estava em festas o elegante e suntuoso palacete do visconde, a mais rica habitação que havia no Rio Comprido.
Casava-se a formosa Matilde, filha predileta do dono da casa, e ele festejava esse acontecimento o mais ruidosamente possível.
O palácio achava-se todo ornado por dentro e fora; uma esplêndida banda de música executada no saguão trechos escolhidos das óperas mais em moda, e a criadagem vestida com suas finas librés, circulava de um lado para outro, dispondo os últimos preparativos da ornamentação.
O cortejo havia partido às duas horas da tarde para a igreja, e na rua apinhava uma multidão curiosa de assistir à chegada dos noivos, ao regressarem da cerimônia nupcial.
Enquanto assim se dispunham as coisas para a folgança no suntuoso palacete do visconde, uma cena muito diferente se desenrolava em uma casa de mais que modesta aparência da mesma rua.
Em cima de uma mesa que havia na sala dessa casa, que era então um pardieiro, quase em ruínas, via-se, num caixão dos mais baratos que a Santa Casa fabrica, o corpo de uma moça amortalhada. Duas velas alumiavam-na, e em redor permaneciam as pessoas da família e alguns vizinhos, todos gente pobre.
Pai e mãe e irmãos dessa criatura morta desfaziam-se em amargo pranto e sentiam a alma rasgar-se pela mais fina das dores, nesse momento em que se ia fechar o caixão e levá-lo a um carro fúnebre parado à porta.
Pobre gente! Essa de quem iam separar-se para sempre era a sua boa Lúcia, filha e irmã mais velha, que todos estimavam tanto! Pobre Lúcia! Ela era o braço direito daquela família. Do seu trabalho vinham os minguados mil réis com que se pagava à venda, depois que o pai ficara aleijado e a mãe entisicara. A boa Lúcia sempre alegre, sempre resignada! Como não deviam sofrer os pobrezinhos, naquele terrível transe por que passavam.
O pai de Lúcia era um rude operário de obra grossa, um carpinteiro e tivera a infelicidade de quebrar uma perna, caindo de um andaime em que trabalhava.
Essa desventura foi o início de todas as desgraças que assaltaram a família. Conduzido para a Santa Casa, lá esteve quatro longos meses, entre a vida e a morte; e a mulher e os filhos começaram a curtir duras necessidades, pois o pai nada ganhava.
O taverneiro já fechava a cara quando iam às compras, e por mais que a mulher do carpinteiro e Lúcia, sua filha, se matassem numa tina a lavar roupa, o dinheiro não chegava para coisa alguma.
A mãe de Lúcia era uma mulher franzina e muito disposta para moléstias do peito. Com o trabalho excessivo que fazia, logo começou a deitar escarros de sangue pela boca, e dentro em breve nada mais pôde fazer. O carpinteiro tivera alta do hospital, mas não podia ainda trabalhar. Assim a pobre família achou-se na mais negra miséria.
No entanto Lúcia trabalhava cada vez mais. De dia não se arredava da tina de lavar roupa, de noite costurava até o galo cantar. Não pôde resistir por mais tempo à semelhante canseira, e também caiu enferma.
Uma circunstância veio ainda agravar o estado dos infelizes.
A casa em que Lúcia morava pertencia ao mesmo visconde a que já nos referimos, e ele ordenara ao carpinteiro que se mudasse, já que não podia pagar os aluguéis. O visconde, apesar de opulento, era inflexível em questões de dinheiro. De nada valeram os rogos do pobre carpinteiro que a ele se dirigiu, arrastando as muletas e com as lágrimas nos olhos. O visconde manteve a sua ordem.
"Se fosse a ouvir a choradeira de todos", dizia o titular, "bem depressa estaria reduzido a pedir esmola. Não era ele quem fazia as desgraças: era Deus. Pedissem-lhe contas".
O carpinteiro teve que desocupar a casa e fora meter-se no pardieiro de que já falamos e que por piedade lhe cedera um outro carpinteiro, seu amigo e compadre.
Era uma casa de todo imprópria para habitação humana: suja, úmida, acanhada.
Nela os padecimentos de Lúcia foram a mais, e no fim de quinze dias a pobre rapariga entregava a alma a Deus.
No entanto o cortejo nupcial tinha regressado da igreja, e de uma extensa fila de carros apearam os noivos, radiantes de felicidade, e bem assim a multidão dos convidados, homens e mulheres, abafados nas suas toaletes de uma rigorosa etiqueta.
Logo que os carros despejavam a luxuosa carga que traziam, foram manobrados pelos cocheiros, muito tesos nas suas boléias, soberbos nas suas sobrecasacas de casimira cor de camurça e nas suas finas botas de canhão, e entraram na porta-cocheira, aberta de par em par.
Noivos e convidados começaram a subir os degraus do vestíbulo. A noiva ia de olhos baixos, deliciosa, no seu vestido de seda branca, linda como uma tentação, debaixo de uma grinalda de flores de laranjeira. Da fisionomia do noivo, um guapo mancebo de vinte e poucos anos, transpirava a maior ventura, parecendo tonto pela felicidade.
Quando porém já tinham todos subido os três degraus do vestíbulo, o carro de enterro que transportava a pobre Lúcia ao cemitério chegava bem defronte ao palacete do visconde.
Era um carro dos de ínfima classe, todo preto e de cortinas esmolambadas, guiado por um cocheiro negro, de cartola de oleado amarrotada, libré sebosa, tendo a fisionomia aguardentada, e que, encarrapitado na boléia, chupava com a maior indiferença deste mundo em cigarro de papel.
Aquela mísera seguia para o cemitério sem o menor acompanhamento.
O carro vinha descendo a rua tranqüilamente, ao trote cansado de dois cavalos magros, ossudos. Quando, porém, chegou bem defronte ao palacete, os cavalos que pareciam incapazes de qualquer resistência, encabritaram-se e recusaram avançar. O cocheiro, que não esperava essa revolta dos pacíficos rocins, quase foi levado ao chão; e exasperado, vibrou o pinguelim no dorso das magras cavalgaduras, proferindo as mais cruas obscenidades.
Noivos e convidados, todos voltaram o rosto para ver o que se passava na rua. Os cavalos do coche fúnebre persistiram em não avançar, e o cocheiro, levado ao maior auge da exasperação, desandava os bichos com cabo do pinguelim.
Aquilo parecia mandado pelo diabo. Os cavalos pinoteavam, escouceavam, o cocheiro praguejavam como um possesso. Afinal dando os animais um violento arranco, a poder de pancadas, embicaram o coche para o lado do palacete, e nele o esbarraram. A lança do carro entrou pelo gradil do jardim que adornava a frente do edifício, e ali ficou a traquitana.
Foi preciso que a criadagem do visconde desembaraçasse o carro e auxiliasse o cocheiro a conduzi-lo.
Esse fato impressionou desagradavelmente a todos que faziam parte do cortejo nupcial, e uma senhora já idosa que entre eles se achava, exclamou aterrorizada:
- "Um carro de enterro parar logo aqui, e isso em dia de casamento!... É mau agouro!..."
Sem que ninguém pudesse explicar a razão, o festim realizado em casa do visconde correu frio.
Os próprios noivos sentiam-se tristes. O fato de ter parado um carro de enterro à porta do palacete, e naquele dia, roubava a alegria a todos. Como que se adivinhava uma grande desgraça.
E esse mal-estar aumentou quando à meia-noite circulou na sala a notícia de que Matilde, a formosa noiva, tinha repentinamente adoecido.
Logo cessaram as danças. As bandas de música calaram-se, e os convidados foram pouco a pouco retirando-se. Daí a meia hora só se achavam no palacete os parentes e amigos mais íntimos.
Matilde estava realmente doente. Subitamente acometera-a uma violenta dor de cabeça, uma aflição, e dentro de uma hora ardia em febre intensa.
O noivo ficou alucinado. O visconde, já terrivelmente impressionado com o caso do coche fúnebre, despachou criados em todas as direções para chamar médicos, que acudiram pressurosos.
No entanto por mais esforços que empregassem os facultativos, não puderam aniquilar a enfermidade que acometera a inditosa moça. Consumia-se a olhos vistos. No dia seguinte já parecia um cadáver, tão pálida e abatida se achava. No terceiro dia não conhecia mais ninguém. No quarto havia perdido a fala. E na manhã do quinto dia, quando os pássaros começaram a trilhar sobre o arvoredo, cujas ramagens adornavam a janela do seu aposento, a pobre moça exalando um suspiro despediu-se da vida.
Bem dissera a respeitável matrona que fizera parte do cortejo nupcial. O carro fúnebre esbarrando no gradil do palacete fora um mau agouro.
O cadáver de Lúcia, a pobre filha do carpinteiro aleijado, viera chamar para a paz do sepulcro a filha do potentado, do opulento, que tirara um teto a seu pai, em momento de aflição e pobreza. Deus assim o quis. Tanto houve luto no casebre esburacado como no rico solar. Era preciso que o desumano titular também sentisse rasgar-lhe a alma o espinho da dor.
(Padilha, Viriato. O livro dos fantasmas. Rio de Janeiro, Spiker, 1956)
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Um homem era muito pobre, casado, com muitos filhos, tendo um compadre que era podre de rico. Então o tal homem era preguiçoso, que uma cousa era ver e outra contar. A mulher dizia-lhe:
- Marido, vá trabalhar. Vá pocurar a vida.
- Eu não. - respondia o sujeito.- O que tiver que ser meu às minhas mãos há de vir.
E ia pelas ruas malandrear, bebendo cachaça. Um dia, ele pegou na rede foi para omato, arnou-a e deitou-se, a fim de dormir à vontade do corpo. Pegando no sono, sonhou que Nossa Senhora chegou junto da rede e lhe deu um cacho de bananas, que quanto mais banana se lhe tirava, mais banana nascia, recomendando:
- Não passe com esse cacho de bananas pela casa do compadre rico.
Aí, ele acordou, e, abrindo os olhos, viu um cacho de bananas perto da rede. Para experimentar se era como Nossa Senhora lhe dissera no sonho, tirou uma banana e comeu. Nasceu logo outra. Tirou uma porção d ebananas e outras foram nascendo imediatamente, ficando o cacho perfeitinho. Muito contente, exclamou:
- Olhe! Eu não disse que o que for meu às minhas mãos há de vir?!...
desatou a rede mais que depressa e correu para casa. Passando pela do compadre rico, sem se importar com a recomendação de Nossa Senhora, ao chegar-lhe à porta, gritou:
- Meu compadre, estou rico!
- Já vem você com as suas maluquices para cá, seu bêbedo, seu preguiçoso?
- Não é não, meu compadre. Quer ver? Olhe. Este cacho de bananasm quanto mais banana a gente tira dele, mais banana nasce.
- Pois eu quero ver isso, tornou o compadre rico.
O homem tirou uma banana, nasceu outra; tirou uma, nasceu outra; tirou uma, nasceu outra. Então o rico começou a conversar com ele e a dar-lhe bebida. Quando o pobre do homem ficou tonto, que caiu no sono, ele pegou no cacho de bananas, guardou, e mandou ver outro na despensa, botando no lugar. Quando acabou de curtir a cachaça, o sujeito apanhou o cacho de bananas e foi-se embora. Chegando perto de casa, gritou:
- Minha mulher! Minha mulher! Estamos ricos!
- Venha, - respondeu-lhe ela zangada - venha para casa com as suas besteiras! Ainda bem que eu hoje estou com os meus azeites...
- Olhe, - disse arriando o cacho, - a gente tira uma banana deste cacho e nasce outra logo.
Os meninos aí caíram e comeram as bananas todinhas, não nascendo uma só. A mulher foi em cima dele com um pau, que foi pancada de criar bicho.
No outro dia, o homem saiu, indo outra vez armar a rede no mato. Sonhou ter Nossa Senhora lhe dado uma toalha, que quando se estendia na mesa, dizendo - pôe-te, mesa -, apareciam comidas de todas as versidades. Tornou Nossa Senhora a lhe recomendar que não passasse pela casa do compadre rico. Porém ele passou, fazendo a mesma presepada que fez com o cacho de bananas. O compadre embriagou-o, trocou-lhe a toalha e ficou bem de seu. Chegando em casa com um berreiro muito grande, estendeu a toalha da mesa começando: - põe-te, mesa... põe-te, mesa... Qual põe-te, mesa, qual nada, meu senhor. Não apareceu nem um carocinho de farinha. A mulher coou em cima dele, de cacete, que fez-lhe a festa.
Quando foi no terceiro dia, ele tornou a ir armar a sua rede no mato e Nossa Senhora deu-lhe uma bolsa cheia de dinheiro. Quanto mais dinheiro se tirava, mais dinheiro aparecia. Não se importou ainda com a recomendação de Nossa Senhora, passando pela casa do compadre rico que lhe trocou a bolsa, como trocara o cacho de bananas e a toalha. Chegando em casa, já se sabe, a bolsa estava limpinha, tornando a ir dormir.
Finalmente, no quarto dia, tornando a ir dormir no mato, não teve sonho. Quando acordou, lamentando Nossa Senhora não ter lhe dado nada, levantou-se, espreguiçou-se, desatou a rede, abaixou-se e apanhou o chapéu que estava no chão. Quando foi botando o chapéu na cabeça, tinha um chicote de couro, bem fino e bem ensebado, enroladinho dentro, que foi desenrolando-se e caindo em cima dele, dando-lhe lambroadas a torto e a direito, por todas as partes do corpo. Quando já estava mole de tanto apanhar, lembrou-se de dizer:
- Bastam chicote!...
O chicote aí enrolou-se entrando para o fundo do chapéu. O homem correu mais que depressa para a casa do compadre rico que, mal o bispou ao longe, foi logo gritando, já muito alegre, pensando engzopá-lo mais uma vez:
- Oh, meu compadre, o que é que temos hoje de novo?
- Hoje, - respondeu-lhe o sujeito, - temos uma coisa muito boa, aqui dentro deste chapéu.
Foi dizendo isso e botando o chapéu na cabeça do compadre. O chicote desenrolou-se, caindo na cacunda dele, que não brincou: - lépote, lépote, lépote... O homem abriu o eco, berrando mais do que bode:
- Me acuda, compadre... me acuda...
E o chicote comendo-lhe o couro. Quando o pobre viu que o compadre estava bem esfregado, disse-lhe que só mandava o chicote parar se ele botasse para ali, naquele momento, o seu cacho de bananas, a sua toalha e a sua bolsa. Mais que depressa, o rico mandou buscar tudo e entregou ao compadre. Então, este disse:
- Basta, chicote.
Foi que o chicote deixou o rico tomar fôlego. Também, ele estava com o corpo moído, que fazia pena.
Chegando em casa sem dizer palavra, foi botando o chapéu na cabeça da mulher e o chicote foi-se desenrolando e caindo-lhe do lombo com vontade. Ela botou a boca no mundo, - auê... auê... - gritando pelo rei de França. O marido aí lhe disse:
- Isto é em paga das cacetadas que você me deu.
Quando viu que a mulher estava bem convidada, mandou o chicote parar. Então foi viver descansado, com o seu cacho de bananas, a sua toalha e a sua bolsa.
(MAGALHÃES, Basílio de. O folclore no Brasil)
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O ALFAIATE MALANDRO
No tempo em que Jesus andava pelo mundo com o apóstolo Pedro, disseram que ele ia passar por uma vila onde morava uma viúva muito piedosa e sem malícia. Ela morava numa casa de parede e meia com um alfaiate danado de sem vergonha e que queria pegar a viúva. Nunca dava certo dele pegar a viúva. Então, ele fez um buraco na parede para poder ver o que ela fazia, e vivia espiando. Um dia, ele viu a viúva rezando na sala e pedindo que Jesus chegasse logo, que era o maior consolo da vida dela. Então, o alfaiate, pelo buraco da parede, disse:
- Minha querida irmã, eu já escutei o seu rogo, por isso apronte a janta e a cama que eu vou chegar antes da madrugada. Põe um pouco de vinho e de paçoca de carne na mesa.
A viúva caiu de joelhos e disse:
- Mas será que o bom Jesus vem sozinho? Disseram que São Pedro vinha também e eu não tenho cama para ele.
- Não se avexe, minha boa irmã, que eu já arrumei pouso pra Pedro, eu vou aí sozinho. Mas não esqueça do vinho que lhe pedi.
A viúva, mais que depressa, foi aprontar a comida, pensando: "Hoje o Senhor Bom Jesus vem na casa!" Dali a pouco bateram três pancadas na porta da viúva e ela disse:
- Ai, meu Deus, o Senhor Jesus já chegou? - Foi correndo e pergunto: - Quem é que está batendo na porta?
- Jesus, minha boa filha! - Ela abriu e o Jesus de impostura entrou já querendo abraçar a viúva. A viúva escapou dizendo:
- Ai, meu bom Jesus, ainda nem acabei de fazer a janta! - e fugiu pra cozinha, pensando se Jesus abraça os outros. No fim, ela pensou que ele devia mesmo abraçar os outros sem ruindade. Voltou pra sala e o Jesus de impostura olhou pra ela com dois olhos que nem de gato. Ela fugiu pra cozinha, dizendo que tinha esquecido de trazer paçoca. Veio de novo e viu o Jesus de impostura tirando a roupa e dizendo:
- Vamos deitar um pouco pra descansar, minha filha, que depois nós vamos comer paçoca e beber o vinho.
Então ela viu que aquilo não era Jesus coisa alguma e correu pra cozinha, dizendo que já voltava com o vinho. Lá na cozinha ela se ajoelhou e rogou que Jesus de verdade aparecesse e desse um jeito naquela impostura sem medida. O homem lá de dentro deu um berro:
- Venha logo, querida filha, que já vai amanhecendo e eu preciso ir antes do galo cantar!
A viúva se entanguiu de medo e pensou: "Quem foge antes do galo cantar é cuisarruim. Ai, que esse homem é de mal querer. Me acuda, senhor Jesus!"
Na mesma hora, bateram na porta e ela foi ver e perguntou quem era. Responderam que era Jesus e o apóstolo São Pedro, pedindo pouso e comida. Mais do que depressa ela abriu a porta e mandou entrar. Jesus disse:
- Quem é aquele rabudo que está debaixo da cama?
Na mesma hora o alfaiate virou cuisarruim e saiu uivando pro terreiro e sumiu que até hoje ninguém sabe por onde anda.
(XIDIEH, Osvaldo Elias. Narrativas populares
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O MENINO E A AVÓ GULOSA
Guiné: galinha d’angola
Papa-mel: animal carnívoro da família dos mustélidas; irara
O menino só possuía um guiné. Numa ocasião de necessidade matou o guinezinho e saiu pra adquirir farinha. Quando voltou, a avó, que morava com ele, comera o guinezinho inteiro. O menino reclamou muito e avó lhe deu um machadinho.
Saiu o menino pela estrada e encontrou o pica-pau furando uma árvore com o bico.
– Pica-pau! Não se usa mais o bico para cortar pau. Usa-se um machadinho como esse…
- Oh! Menino! Empreste-me o machadinho.
O menino emprestou o machadinho ao pica-pau e este tanto bateu que o quebrou.
O menino recomeçou a choradeira:
- Pica-pau, quero meu machadinho que minha avó me deu, matei meu guinezinho e minha avó comeu.
O pica-pau deu ao menino um cabacinho de mel de abelhas. O menino continuou a viagem e lá adiante viu o papa-mel lambendo um barreiro que só tinha lama.
– Papa-mel! Não se usa mais beber lama. Usa-se beber um melzinho como esse…
- Oh! Menino! Me dê um pouquinho desse mel!
Que pouquinho foi esse que o papa-mel engoliu todo o mel e ainda quebrou o cabacinho. O menino abriu a boca no mundo, berrando. O papa-mel presenteou-o com uma linda pena de pato. O menino seguiu.
Lá na frente encontrou um escrivão escrevendo com uma pena velha e estragada.
– Escrivão! Não se usa mais escrever com uma pena estragada como essa e sim com uma boa e novinha como esta aqui…
- Oh! Menino! Empresta-me tua pena…
O bobo do menino emprestou a pena. Num instante o escrivão estragou aa pena. O menino cai no prato. O escrivão lhe deu uma corda.
Depois de muito andar, o menino avistou um vaqueiro tentando laçar um boi com um cipó do mato.
– Vaqueiro! Não se usa mais laçar boi com cipó e sim com uma corda como essa.
– Oh! Menino! Me empresta essa corda.
O menino, vai, emprestou. Num minuto o vaqueiro laçou o boi mas rebentou a corda.
Novo chororô do menino. O vaqueiro lhe deu um boi.
O menino viu a onça, uma enorme, comento um resto de carniça.
– Onça! Não se usa mais comer carniça e sim um boi como esse meu!
- Oh! Menino! Me dê o seu boi!
E comeu o boi. O menino ficou no soluço, choramingando e pedindo o boi:
- Onça, me dê meu boi que o vaqueiro me deu; o vaqueiro quebrou minha cordinha, a cordinha que o escrivão me deu; o escrivão quebrou minha peninha, a peninha que o papa-mel me deu; o papa-mel bebeu meu melzinho, o melzinho que o pica-pau me deu; pica-pau quebrou meu machadinho, o machadinho que minha avó me deu; matei meu guinezinho e minha avó comeu!
A onça como não tinha coisa alguma para dar ao menino, disse, rosnando:
- O boi foi pouco e vou comer você!
E comeu o menino.
(CASCUDO, Luís da Câmara. Contos tradicionais do Brasil)
______________________//////////////////_______________________A Menina dos Brincos de Ouro
Uma Mãe, que era muito má (severa e rude) para os filhos, deu de presente a sua filhinha um par de brincos de ouro.
Quando a menina ia à fonte buscar água e tomar banho, costumava tirar os brincos e botá-los em cima de uma pedra.
Um dia ela foi à fonte, tomou banho, encheu o pote e voltou para casa, esquecendo-se dos brincos.
Chegando em casa, deu por falta deles e com medo da mãe brigar com ela e castigá-la correu à fonte para buscar os brincos.
Chegando lá, encontrou um velho muito feio que a agarrou, botou-a nas costas e levou consigo.
O velho pegou a menina, colocou ela dentro de um surrão (um saco de couro), coseu o surrão e disse à menina que ia sair com ela de porta em porta para ganhar a vida e que, quando ele ordenasse, ela cantasse dentro do surrão senão ele bateria com o bordão (cajado).
Em todo lugar que chegava, botava o surrão no chão e dizia:
- Canta, canta meu surrão, senão te bato com este bordão.
E o surrão cantava:
Neste surrão me puseram,
Neste surrão hei de morrer,
Por causa de uns brincos de ouro
Que na fonte eu deixei.
Todo mundo ficava admirado e dava dinheiro ao velho.
Quando foi um dia, ele chegou à casa da mãe da menina que reconheceu logo a voz da filha. Então convidaram Ele para comer e beber e, como já era tarde, insistiram muito com ele para dormir.
De noite, já bêbado, ele ferrou num sono muito pesado. As moças foram, abriram o surrão e tiraram a menina que já estava muito fraca, quase para morrer. Em lugar da menina, encheram o surrão de excrementos.
No dia seguinte, o velho acordou, pegou o surrão, botou às costas e foi-se embora. Adiante em uma casa, perguntou se queriam ouvir um surrão cantar. Botou o surrão no chão e disse:
- Canta,canta meu surrão, senão te bato com este bordão.
- Canta,canta meu surrão, senão te bato com este bordão.
Nada. O surrão calado. Repetiu ainda. Nada. Então o velho bateu com o cajado no surrão que se arrebentou todo e lhe mostrou a peça que as moças tinham pregado.
Nota: Conto popular na Bahia e Maranhão. Trazido pelos escravos africanos.
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A Mansão Mal Assombrada
Para compreender o que desconhecemos, primeiro precisamos aceitar que não compreendemos..."
A casa era imensa e estava localizada em meio a um pequeno bosque, às margens de um lago profundo e de águas calmas. Tinha uma fama e tanto, de mal assombrada é claro. Ninguém conseguia passar uma noite lá dentro; morar, nem pensar. Possuía muitos quartos em seus três andares construídos sobre uma sólida laje natural de pedra negra, quase à beira de um penhasco.
Passados dezenas de anos, ainda permanecia majestosa e firme, apesar das paredes sujas devido à falta de manutenção. Seus donos eram prósperos, mas o tempo implacável lhes tirara tudo, e agora, embora não mais existissem, ao menos fisicamente, lá estava sua robusta morada, feita para durar mais que todos da sua linha de descendência. Pouco se sabia sobre os acontecimentos que culminaram com o início das assombrações no local, mas a história era clara; os fantasmas do lugar não eram nada amigáveis com os visitantes.
Os últimos enxotados fora um grupo de religiosos, que resolveram fazer um exorcismo para limpar a casa. Naquele grupo, organizado como uma espécie de liga da justiça divina contra as forças do mal, todas as religiões enviaram seus mais competentes, ilustres e sábios ministros. Conta-se que logo na entrada, um deles ficou completamente surdo com o sopro que um dos fantasmas deu nos seus ouvidos; nos dois ao mesmo tempo. Ficou desorientado por um tempo, sem saber nem onde estava, nem qual era seu nome; depois recobrou a razão, mas não a audição.
Os últimos enxotados fora um grupo de religiosos, que resolveram fazer um exorcismo para limpar a casa. Naquele grupo, organizado como uma espécie de liga da justiça divina contra as forças do mal, todas as religiões enviaram seus mais competentes, ilustres e sábios ministros. Conta-se que logo na entrada, um deles ficou completamente surdo com o sopro que um dos fantasmas deu nos seus ouvidos; nos dois ao mesmo tempo. Ficou desorientado por um tempo, sem saber nem onde estava, nem qual era seu nome; depois recobrou a razão, mas não a audição.
Sorte que, por ser sábio, conhecia a linguagem dos sinais, motivo pelo qual, pode continuar se comunicando com os demais membros do grupo. Depois chegou a imaginar que fora beneficiado pela brincadeira da assombração, uma vez que os sons assustadores dos fantasmas arruaceiros não mais o perturbariam naquela noite. Infelizmente, para todos os presentes, a coisa não era tão simples assim. O fato é que, todos foram expulsos da casa poucas horas depois, mas não sem traumas psicológicos preocupantes.
O que mais impressionou ao grupo foi que, ao iniciarem o exorcismo, ao pronunciarem as primeiras palavras sagradas, os fantasmas completaram em voz alta toda a ladainha restante, inclusive com os cânticos dos rituais solenes, e ainda ensinaram aos religiosos algumas técnicas secretas que estes desconheciam. Sem contar que havia um coro de fundo, que recitava em tom canônico, todos os salmos bíblicos, em sua língua original. Saíram da casa moralmente arrasados e questionando a própria fé.
Mas, sem dúvida o que mais abalou a auto-estima do grupo, foram as palavras finais daquele que parecia ser o fantasma chefe. Dissera em tom solene: “Voltem sempre e assim podemos ficar longas horas discutindo sobre todos os livros sagrados. Gostamos de realizar seminários para falar de coisas religiosas, doutrinas secretas e coisas assim. Nossas reuniões é sempre às terças e quintas, meia noite em ponto. Vocês são, a partir de hoje, nossos eternos convidados; não é pessoal?”. Um gemido, algo como “Hum, hum...”, em forma de coro, parecia ser a concordância do restante da comunidade fantasmagórica.
Detalhes à parte, uma nova família que ora estava chegando ao local, parecia não se importar com aquelas lendas e relatos assombrosos. Observaram a imponente fachada da enorme mansão, e aquela que parecia a matriarca comentou: “Pelo menos espaço teremos de sobra a partir de hoje!”.
Entre eles, uma criança, que segurava na mão direita uma revista em quadrinhos, cujo título era, “Histórias Assombrosas”, voltou-se para a senhora que fizera o comentário e disse: “Mãe, quero ver os fantasmas da casa, será que posso; a senhora deixa?“.
“Deixa de coisa menino”, ressaltou a senhora em tom resignado, “fantasmas é coisa de gente, existem para os seres humanos; eles aparecem e assustam pessoas. Somos Ratos, e fantasmas não assustam Ratos”. Meio desolado e olhando para o rabinho que dava voltas no ar, ele suspirou, pegou sua mochila e subiu lentamente os degraus em direção à casa.
Autor: Alberto S. Grimm------------------############----------------------
O Coral
Minha mãe me explicou direitinho o que significavam os vários tipos de sons. Ela disse que os sons das vozes podem ser graves ou agudas. Grave é o som mais alto, o mais forte, o mais grosso. O agudo é o som mais fino, mais baixo. Assim, uma voz fininha como a minha é aguda; uma voz como a dela, que é mais grossa, é grave. Depois ela complicou tudo quando disse, que Tenor é o cantor de voz fina, ou aguda, e que Baixo é o cantor de voz mais alta, ou grave. Preferi ficar com a primeira explicação, pois essa eu entendi bem.
Em nossa escola, aprendemos a cantar toda manhã, e antes mesmo de qualquer atividade, logo nos reunimos para cantar. Para falar a verdade, adoro cantar, também gosto de observar meus amiguinhos cantando. Fico prestando a atenção para ver que tipo de voz eles possuem. Percebo que às vezes muda muito. Ora é grave, ora é agudo, ou ambos; nunca é uma coisa só. Mas a minha é sempre fininha, é uma coisa só. Perguntei para ela, por que cantar é tão bom, e ela me respondeu que, cantar é melhor que chorar. Perguntei se ela chorava e ela disse que não, simplesmente porque cantava. Fiquei pensando um pouco naquilo, e vi que era assim mesmo.
Lembro de um dia que estava sem vontade de cantar, e logo senti vontade de chorar. Será que cantar é o contrário de chorar? Talvez seja por isso que na porta da escola tem uma placa onde está escrito: “QUEM CANTA SEUS MALES ESPANTA”.
Outro dia, no pátio de um supermercado, vi uma menina chorando. Perguntei a minha mãe porque ela estava chorando, se era porque não sabia cantar. Minha mãe disse que não; que ela chorava porque sua natureza era diferente da nossa. Disse que ela possuía uma natureza, complexa, e que desde cedo aprendiam logo e serem infelizes, e por isso mesmo nunca se contentavam com aquilo que já possuíam, com aquilo que a natureza mãe lhes deu. Assim, criavam muitas necessidades, tinham muitos desejos, e ela estava chorando exatamente porque um dos seus desejos não fora realizado. Perguntei se aquela mulher de cara brava, ao seu lado era a mãe dela, e minha mãe disse que sim. A menina olhou para nós e por um instante ficou quieta. Depois saímos de lá, sem saber o resultado final.
No dia seguinte, contei para minha professora aquele fato. Ela então nos falou sobre os estranhos, sobre como são perigosos, sobre como não devemos confiar neles. Então nos contou a história de um cantor famoso, que gostava de ensinar as crianças a arte do canto. Perguntei se aquilo não era uma lenda, pois lá em casa também ouvira falar dele, só que meus pais nada mais acrescentaram. Ela disse que não era lenda, tudo acontecera de verdade, que ele realmente existira. E contou sua história.
"Ele criou os corais. Sua voz era incomparável, e era ainda capaz de cantar em todos os tons. Criava músicas de improviso, e como ele ninguém fazia igual, e nem por isso era vaidoso. Não gostava de competir nos torneios da comunidade, pois dizia que isso dividia os indivíduos, criava desunião, tirava a espontaneidade de ser de cada um. Nunca competiu e defendia que isso era a causa do todo desentendimento que existe nos relacionamentos. Se alguém tinha ciúmes dos feitos do outro, logo queria competir, ou para se igualar, ou para superar. Mas no final, quem saia ganhando se a competição sempre continuava? E ele dizia: Se alguém ganha, quer ganhar sempre. Assim, a alegria do prêmio logo se transforma em inquietação, pois estará sempre preocupado em não perder. E ele ensinava pessoalmente o canto às crianças. Gostava de fazer isso de forma voluntária, mas ressaltava que não estava a mando de ninguém. Fazia isso porque era sua vocação; fazia porque dizia que ensinar alguém a ser livre, a não depender de favores nem dos opressores, era a verdadeira felicidade a ser conquistada. Nunca se preocupou em escrever nada sobre o que ensinava, pois dizia que a aqueles que ensinava, o que aprendiam já ficava escrito em suas almas, em seus espíritos, e isso lhes bastaria".
Terminada a história fomos cantar mais uma vez, antes de voltar para casa. Nesse dia fiquei pensando naquele cantor da história. Quando fui dormir, de repente me lembrei da história de outro cantor famoso, este bem vaidoso, que inventara um ritmo diferente, onde se cantava do fim para o começo. Era engraçado como cantava, e todos riam muito com as caretas que fazia, quando se engasgava com alguma palavra. Minha mãe disse que suas músicas era de duplo sentido; quer dizer, parecem dizer uma coisa, mas é outra coisa o que realmente significa. Mas, aqueles que o ouvem sabem bem o que significam suas palavras, por isso o adoram.
Então, um dia, quando estávamos na hora do recreio, fiquei sabendo que ele estava visitando a nossa escola. Foi uma correria, pois todos queriam conhecê-lo pessoalmente. Não parecia ser arrogando como disseram, na verdade era muito simples, e logo as crianças gostaram do seu jeito brincalhão. Então antes de começar a falar ele cantou um pouco. E disse antes de começar: “Vou cantar de modo normal, mas apenas para vocês”. Não compreendi bem o que queria dizer com modo normal, mas depois entendi tudo. E foi maravilhoso seu canto, o mais extraordinário que jamais havia presenciado, e todos por igual, ficaram extasiados com tão bela voz.
Era um dia especial, pois ele ia fazer uma palestra para todos na escola. Então, ficamos sabendo que ele fora um dos alunos mais aplicados do cantor que se tornara uma lenda viva. E foi justamente falando sobre seu mestre, que ele iniciou a palestra. E ele falou para todos.
Não devemos nos enganar, pois a vaidade pessoal de um pássaro é nosso mal maior. Nosso mestre não era um pássaro vaidoso, mas era ingênuo, e por isso pagou o preço. Ao exibir seu canto, logo chamou a atenção dos humanos, e estes o capturaram para ter apenas para si seu canto. Ele, claro, nunca mais foi capaz de cantar outra vez. Por isso, publicamente, canto de trás para frente, um canto horrível para o ser egoísta que deseja nos capturar; logo nunca serei desejado. Por isso aprendam; basta saber que sabemos; é tolice exibir nosso saber publicamente em busca de glórias, pois a glória que buscamos pode ser simplesmente o meio de promover outros.
Autor: Alberto Grimm